Vinod Khosla tem muito dinheiro e quer aplicá-lo em coisas úteis, o que explica seu apelido no Vale do Silício, "Anjo Investidor". O indiano de 53 anos já investiu US$ 450 milhões de sua fortuna pessoal em novas tecnologias para salvar a humanidade e o planeta.

Há pouco mais de um ano, Khosla recebeu um e-mail. Ele continha 12 linhas de texto com exatamente o tipo de coisa que esse filantropo imensamente rico gosta de ler: "Tenho a idéia de um cimento sustentável", escreveu Brent Constantz, um professor de química. Sua idéia era transformar as emissões de CO2 de uma usina elétrica em cimento, assim tornando o gás inócuo.

Parecia uma idéia ousada, e foi exatamente isso que chamou a atenção de Khosla. Embora ele estivesse de férias na época, logo telefonou para o inventor e disse: "Contrate cinco pessoas e construa um laboratório!" Constantz respondeu que seu plano não era algo para os tímidos. Em resposta, Khosla rugiu: "Já lhe dei o dinheiro. Agora comece a trabalhar!"

Enquanto isso, a nova companhia, que se chama Calera, construiu uma fábrica protótipo em um local vizinho a uma usina elétrica movida a gás em Moss Landing, Califórnia. Em seu novo laboratório, o químico Constantz estuda maneiras de sifonar uma parte do CO2 liberado pela usina e conduzi-lo através da água do oceano Pacífico, que fica próximo.

A teoria de Constantz é que quando o CO2 se combinar com o magnésio e o cálcio dissolvidos na água a substância resultante será algo que a humanidade usa em vastas quantidades: cimento. "Quimicamente falando, a mesma coisa acontece no coral quando cresce", diz Constantz, que originalmente desenvolveu um tipo de cimento usado para reparar fraturas ósseas e em aplicações dentárias. Essa reação com água do mar beneficiaria o clima, porque o dióxido de carbono das emissões seria incorporado ao carbonato. Depois o calor da usina elétrica seria usado para secar o material semelhante a barro. "Conseguimos os menores tijolos que podem ser usados para fabricar cimento", diz Constantz.

Dessa maneira, as usinas de energia que normalmente emitem CO2 na atmosfera poderiam ser transformadas em ralos de carbono. Por um lado o CO2 que elas produzem se tornaria inócuo. Por outro, elas eliminariam a produção de tijolos, de alto consumo energético, na indústria de cimento. "Uma tonelada do meu cimento remove meia tonelada de CO2 do meio ambiente", afirma Constantz, que também é professor visitante na Universidade Stanford.

Cimento culpado do efeito estufa

A indústria de concreto produz mais de 2 bilhões de toneladas de cimento por ano em todo o mundo. Ao fazê-lo, libera 5% do CO2 emitido em todo o mundo, o que a torna a terceira maior produtora isolada de gases do efeito estufa. A grande pegada de carbono do setor é conseqüência dos processos de produção com alto consumo de energia, que inclui temperaturas de 1.450 graus centígrados para assar as matérias-primas e o uso de motores elétricos para pulverizar os tijolos de cimento resultantes.

"Devido a esse processo, é difícil reduzirmos significativamente as emissões de CO2", explica Martin Schneider, diretor do Instituto de Pesquisa da Indústria de Cimento em Düsseldorf. O método mais promissor é eliminar totalmente os tijolos, disse Schneider. Isso é obtido em parte através do uso de cinza granulada, um subproduto da indústria do aço. Mas as siderúrgicas já estão mandando toda a sua produção anual de 7 milhões de toneladas para fábricas de cimento. "Não vejo uma maneira de aumentar esse número", disse Schneider.

Por esse motivo, o método que Constantz inventou para transformar CO2 em cimento é especialmente interessante para Schneider. O inventor da Califórnia promete produzir exatamente o material alternativo de que a indústria de cimento precisa desesperadamente.

Constantz espera ter cinco fábricas protótipo em funcionamento no ano que vem, e o primeiro modelo comercial até 2010.

Isso é música para os ouvidos de seu apoiador financeiro, Vinod Khosla. Mas o especialista em cimento Schneider adverte contra o excesso de otimismo econômico. O processo pode funcionar em pequena escala, segundo Schneider, mas transferi-lo para um ambiente de produção em grande escala é totalmente diferente, e a Calera ainda tem de provar que é possível. "Muitas coisas podem ser testadas em um aquário", disse Schneider.

Outras idéias para eliminar os gases do efeito estufa ainda têm de passar pelo teste prático. Muitos engenheiros, físicos e químicos de todo o mundo estão desenvolvendo maneiras de seqüestrar o CO2. Institutos de pesquisa dos EUA, especialmente - país onde a crença na factibilidade técnica é acentuada -, estão sempre apresentando novas propostas.

A Planktos, baseada na Califórnia, levantou a idéia de usar tanques gigantes para acrescentar pó de ferro aos mares do mundo, restaurando o comportamento da poeira trazida pelo vento (que diminui com o aquecimento global) e estimulando o crescimento das algas. O CO2 capturado pelas algas mergulharia nas profundezas quando as plantas morrem. Um teste em grande escala perto das ilhas Galápagos fracassou recentemente devido à falta de financiamento.

Ning Zeng, um pesquisador atmosférico americano da Universidade de Maryland, propôs mergulhar troncos de árvore nos oceanos - e junto com eles o CO2 capturado na fibra da madeira. Segundo os cálculos de Zeng, esse programa poderia dar emprego a um milhão de trabalhadores florestais.

Muitos de seus colegas criticam a proposta de Zeng. Na verdade, parece mais sensato não perseguir o gás do efeito estufa quando ele já está na atmosfera terrestre. Seria mais fácil coletar o CO2 antes que seja emitido, através de chaminés ou canos de exaustão, e depois armazená-lo no subsolo em um processo chamado de seqüestro.

O norueguês Olav Karstad, um engenheiro do StatoilHydro Group, inventou esse processo. Ele o aplicou pela primeira vez em uma plataforma de extração de gás no mar do Norte, onde o dióxido de carbono é bombeado para dentro do poço, extraindo o valioso gás natural ao mesmo tempo. Desde então muitos grupos de pesquisa, como do Instituto Federal de Geociências e Recursos Naturais da Alemanha, vêm procurando locais de armazenagem adequados e seguros. Os cientistas também estudam a possibilidade de bombear CO2 em minas de carvão. Isso levaria à liberação de metano, que pode ser capturado e usado como combustível.

Mesmo que o armazenamento final seguro tenha sucesso, todos esses métodos têm um ponto econômico negativo. O CO2 das usinas energéticas teria de ser captado e seqüestrado em forma altamente comprimida. No entanto, isso custa energia. Uma usina de energia a carvão, por exemplo, perderia cerca de 10% de sua eficiência.

No entanto, os pesquisadores climáticos ardorosos como Hans Joachim Schellnhuber, um assessor da chanceler alemã, Angela Merkel, também estão abertos a propostas ousadas. "Estamos em uma situação desesperadora", diz Schellnhuber, "por isso também devemos avaliar idéias anticonvencionais."



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